Acompanhando o estilo em que foi escrito o livro de 1Macabeus, nesse, também, constatamos, entre outras coisas, uma série de anacronismos. Começando pela narrativa sobre a morte do rei Antíoco, a referência 1.11-17 fala que ele foi assassinado brutalmente por apedrejamento, sendo, em seguida, esquartejado, enquanto 1Macabeus 6.1-17 diz que o rei morreu de tristeza, por não ter alcançado seu objetivo: a conquista de Elimaida e suas riquezas.
E não só isso. A primeira narrativa sobre a morte do rei Antíoco, conforme registrada no capítulo 9, também é incoerente. O texto versa a respeito do juízo divino, que teria caído sobre esse rei por causa de sua arrogância, proporcionando-lhe dores, fraturas, chagas e a ação de vermes, ocasionando o seu ferimento.
Por essas contradições, compreende-se que a obra (ainda que levando em consideração a citação de personagens históricos verídicos) nada mais é do que uma fábula. Até porque, os próprios editores da Bíblia de Jerusalém reconhecem que o autor associou a morte de Antíoco (Epifanes) à de Antíoco III, baseado na crença popular, visto que ninguém conhecia, ao certo, a forma como Antíoco Epifanes havia perecido.
Na referência 2.13-15, o autor menciona textos dos quais não existem citações paralelas. Trata-se de supostas obras escritas por Neemias e Davi, que estariam guardadas na biblioteca de Neemias. Judas Macabeus teria sido um dos homens que colaboraram com a recuperação de tais livros (v.14).
Dos versículos 19 a 32, pode-se vislumbrar, com facilidade, o quanto essa obre é artificial. A narração, feita na primeira pessoa do plural (nós), é um esforço do escritor em atender às necessidades dos prováveis leitores, o que infere planejamento humano para transcrição de algo, impedindo que se qualifique, nesta parte, como obra divinamente inspirada, quando atentamos para os ditos: “... para que desejam adentrar nos relatos da história [...] tivemos o cuidado de proporcionar satisfação...” (v.24, 25).
Outra prova contra a inspiração e a falta de orientação divina para esse livro é quando o autor declara: “Contudo, pelo reconhecimento que esperamos de muitos, de boa mente nos submetemos à dura tarefa” (v.27). Com isso, se mostra, efetivamente, desprovido de amparo espiritual, bem diferentes do que ocorre com os escritores do Antigo Testamento.
Na referência 10.10, novas frases demonstram que a obra é uma produção meramente humana. Segundo o autor, ele próprio irá narrar os fatos, resumindo-os. Dessa forma, descortinou a verdade a respeito de um texto que estava completamente sob seu domínio. Ou seja, elaborou a obra de acordo com a sua própria vontade, como bem quis.
Na referência 12.38-45, encontra-se o episódio mais questionável de todo o livro: a coleta de ofertas que seriam destinadas a Jerusalém, em prol das almas dos soldados judeus mortos por terem tocado em coisa imunda, proibida pela lei mosaica. A comparação é prática: a narração, em tudo, é semelhante ao texto de Josué 7.1-26. Assim como Acã levou para o acampamento objetos proibidos aos judeus (Dt 7.25-26), cuja consequência foi a derrota dos israelitas, numa batalha já ganha, praticamente, os homens de Judas Macabeus também ocultaram, sob as vestes, objetos consagrados aos ídolos de Jamnia (12.40), o que foi reconhecido, pelos correligionários sobreviventes de Judas, como o verdadeiro motivo da morte dos transgressores.
Roma se valeu desse episódio para tentar fundamentar a suposta eficácia da oração pelos mortos, mas sem levar em consideração o seguinte contrassenso: Acã e seus familiares foram apedrejados e todo o seu pertence queimado. Já os homens de Judas Macabeus, além de um sepultamento digno, foram beneficiados com uma coleta, destinada a Jerusalém, para expiação do pecado, para que os transgressores tivessem direito à ressurreição naquele Dia.
Mas será que o Senhor Deus efetuaria um juízo baseado em dois pesos e duas medidas?
Na referência 13.8, vemos o autor externando seu juízo de justiça (como se o seu juízo pudesse ser equiparado ao juízo divino) ao comentar a respeito da morte de certo homem chamado Menelau da seguinte forma: “... com plena justiça, pois ele havia cometido muitos pecados contra o altar...”.
Na referência 14.37, certo homem, Razias, é denominado “pai dos judeus”, porque, segundo o autor, esse ancião tinha virtudes que sempre eram empregadas em benefício do povo judeu. Todavia, não há como coadunar esse propósito com o pensamento dos fariseus (os mais escrupulosos representantes da norma mosaica), que reconheciam, como “pai” (no contexto terreno), apenas Abraão (Lc 1.73; 3.8). “Pai” era um adjetivo honroso empregado com muito cuidado pelo povo judeu, e sua atribuição, nesse apócrifo, ao desconhecido Razias, se presta tão somente para desabonar a obra em análise.
A honra concedida a Razias, um procedimento particularmente do autor dessa obra, também é narrada no versículo 41, o que compromete ainda mais a suposta nobreza do personagem. Nessa referência, Razias, cercado de todos os lados pelo exército inimigo, segue o modelo de covardia de Saul (1Sm 31.1-6), atirando-se sobre a própria espada, cometendo suicídio. Após tão grave ferimento, o texto descreve sua carreira em direção à muralha, de onde de arremessou sobre o povo. Apesar do ferimento à espada e da queda (de uma altura de cerca de cinco metros), Razias permanece vivo, conseguindo, não se sabe como, deslocar-se, correndo no meio das tropas, até chegar a uma rocha, sobre a qual, postado de pé, provavelmente valendo-se da incisão provocada pela espada em seu abdome, retira as próprias entranhas com as mãos e as lança contra o povo.
O encerramento apoteótico da narrativa realmente parece alcançar níveis cinematográficos, quando não, fabulosos e míticos. Após tantos excessos, torna-se desnecessário discutir a descabida afirmação de que o suicídio de Razias retratava sua nobreza, posto que tal iniciativa era vedada aos judeus (Êx 20.13).
O ápice da fragilidade humana surge na referência 15.38, onde o autor presta contas ao leitor sobre a qualidade da obra. E faz isso nos seguintes termos: “Se o fiz bem, de maneira conveniente a uma composição escrita, era justamente isso que eu queria; se vulgarmente e de modo medíocre, é isso o que me foi possível”. (grifo do blog)
Por todo o exposto, constata-se que, embora alguns aspectos relacionados à historicidade possam merecer crédito, a obra, de modo geral, não goza do caráter qualitativo comum aos livros divinamente inspirados.
Fonte: Bíblia Apologética de Estudo - Instituto Cristão de Pesquisas


